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A pílula me tirou a alegria de ser Mulher quando eu mais queria vivê-la

Ao ler esse título, penso: Como não me toquei disso antes? Parece tão óbvio agora, mas naquele momento eu não conseguia enxergar. Momento esse que durou muito mais do que deveria. Praticamente, uns dois anos. O início foi lá em meados de 2015, quando eu comecei a pensar sobre o que falaria na minha monografia. Sabia que teria a ver com imprensa feminina e com Mulher. Aquilo tudo me seduzia. Analisar o Saia Justa? Talvez. A Revista Tpm? Melhor. Eu amava as revistas e o discurso feminista que emanavam (eu já levantava a bandeira do feminismo com orgulho :). Beleza! Decidido. Estava animada e já começava a ir atrás de bibliografia que pudesse me ajudar. Em 2016, entrei de cabeça (e alma) em um processo transformador que foi muito além de um trabalho acadêmico.

 

Minha orientadora, a Prof.ª Ma. Marliva Gonçalves (hoje percebo claramente que a vejo como uma Mulher Selvagem e por isso a escolhi para me orientar), durante as orientações, comentou duas coisas que me marcaram e que, hoje, vejo que fazem todo sentido. A primeira foi quando ela disse que o processo da monografia era punk, ia fundo dentro de nós. Tanto que uma das suas alunas descobriu um câncer no período. Tudo vinha para fora, enfatizou. E não é? Fazer a monografia é tu e tu mesma, teus medos, teus desafios, teus sonhos, teu eu. Em outra ocasião, depois de eu chegar eufórica comentando os trechos de livros que havia lido para embasar o capítulo que falaria da Mulher, ela disse que poucas vezes tinha visto alunas e alunos tão apaixonados pelo tema do TCC. Eu era uma delas. Estava apaixonada por todo aquele universo feminino. Estranhamente, para mim não estava tão claro. Mesmo que…

 

Do latim, mulier. Na Grécia Antiga, é Afrodite. Deusa. Na mitologia romana, é Vênus. Fertilidade, beleza e amor. Na Bíblia Sagrada, é Eva. Ao lado, uma serpente. Na crença católica, é a Virgem Maria. Mãe. E Madalena, amante. Na Idade Média, é bruxa. Feiticeira. É inferior, quebradiça. É esposa, servente. É natureza, útero que sangra. É poder. Força. É Buda. Alma e corpo. É feminina. Mulher.

 

Isso é o que escrevi no primeiro parágrafo do capítulo 3, que abordou a Mulher sob vários aspectos. “Útero que sangra”!!! Como eu podia viver essa Mulher estando dopada pelos hormônios sintéticos? Como eu poderia sentir o que é ser essa Mulher que eu descrevi tomando a pílula anticoncepcional? Com os meus ovários sem funcionar? Sem ovular e, portanto, sem menstruar de verdade? Impossível. E era tudo o que eu mais queria. Estava na minha cara! Mas todo o amor que eu desejava sentir e não conseguia, transformou-se em raiva. Ódio, confusão, estresse, desânimo, baixa autoestima, autossabotagem, solidão, medo, tristeza, zero libido e um cansaço crônico. Eu não tinha vontade de levantar da cama. Lembro-me de um dia eu estar esquentando o leite de manhã, logo após acordar, e dizer para mim mesma: “Tô cansada”. Em um lampejo de consciência, percebi que falava isso todos os dias. Todos os dias depois de levantar da cama. E ter dormido a noite toda…

 

Ao longo de 2016, enquanto eu lia Mulheres que correm com os lobos, da Clarissa Pinkola Estés, lembro-me de sorrir igual uma boba, de chorar emocionada, de me encantar com aquelas palavras, símbolos e histórias. Eu sublinhei praticamente o livro todo. Coloquei inúmeros Post-it. Apaixonei-me pela Mulher Selvagem que ela descreve. Não devo me lembrar de nenhuma história completa, mas senti todas ao ler. O livro é muito complexo e hoje, depois de adentrar o Sagrado Feminino, quero lê-lo novamente e sei que será ainda mais intenso entrar em contato com aquela sabedoria depois de começar a vivê-la. Lembro-me de nutrir um desejo profundo de entrar em contato com a minha intuição, com esse poder natural que toda Mulher Selvagem carrega em si. Eu me perguntava o porquê de eu não conseguir…

 

Briguei com a minha mãe, com quem tive discussões horríveis. Falei coisas dolorosas. Ouvi outras. Imagina o quanto o meu útero (e o dela) não sofreu? Briguei com o meu pai e com as minhas irmãs mais velhas. Minha vida em casa virou um inferno. Eu não conseguia conversar, abria a boca só para gritar. Gritava e depois me culpava por ter gritado. Esses dias, uma de minhas irmãs me contou que minha mãe chegou a dizer que ela não sabia o que estava havendo, aquela não era a Priscilla que ela conhecia. O que estava acontecendo? Eu morava a cinco minutos do estágio, onde tinha colegas que adorava. Morava a quinze minutos da faculdade, onde tinha colegas e professores que amava. Estava no último ano de uma graduação que eu sentia prazer em ir para aula, mas eu não tinha vontade de viver. O que estava errado? Eu. Hoje, vejo com clareza: eu me odiava por não ser a Mulher que desejava ser. Vivia um conflito interno gigantesco. E mais: eu odiava as Mulheres ao meu redor por elas não enxergarem tudo o que podiam ser. Eu odiava os Homens ao meu redor por eles não enxergarem a beleza dessas Mulheres.

 

Mas não é com ódio que se muda o mundo. É com amor. Quando parei de tomar a pílula, o fiz por medo dos efeitos colaterais físicos. Nem imaginava os efeitos psicológicos daqueles comprimidos. Ainda mais em um ser humano do sexo feminino que queria viver toda a grandiosidade de ser Mulher. COMO EU NÃO PERCEBI QUE TINHA A VER COM A PÍLULA ANTICONCEPCIONAL??? Sério!!! Eu tomava aquele remédio de forma tão automática e inconsciente que nem me passou pela cabeça a mera possibilidade de ele ser um dos fatores principais a me afastar da minha intuição. Eu estava tão confusa emocionalmente e tão exausta mental e fisicamente, pelos anos e anos de estudo e estágios, que eu não conseguia refletir. Mas era um remédio. Era a minha saúde. Quantas vezes agimos no automático sem nos darmos conta?

 

Quando parei com a pílula, no começo deste ano, foi como uma catarse. Uma avalanche: rápida, intensa, dolorosa. A apatia foi embora e veio uma montanha-russa de emoções: em um dia estava rindo, segura e confiante, no outro chorando, insegura e medrosa no nível máximo. Num dia, criatividade mil. No outro, bloqueio total. Meu corpo despertou. Meus ovários despertaram. E com eles, as espinhas vieram aos montes. Aos montes mesmo. Inflamadas por toda raiva acumulada no meu corpo. Nunca minha pele e meu cabelo ficaram tão oleosos. Mas parei de gritar e voltei a falar. E, o mais importante: me senti viva de novo. Estava voltando a ser Mulher. Estava voltando a ser eu mesma. Eu agradeço tudo que vivi e estou vivendo nos últimos meses, porque todo esse processo me trouxe até aqui. Escrevendo essas linhas. Exatamente onde sinto que devo estar.

 

Exercício Sagrado #6: Quais momentos você viveu e vive que mais te fazem sentir a alegria de ser Mulher? Aquelas ocasiões em que você pensa e sente: “Uau! Como é bom ser Mulher!” Vale desde fazer a unha do pé (eu amo!) e usar um vestido até menstruar e dar à luz. Pense no que você gosta e não no que os outros dizem que você deve gostar. Reflita e faça mais vezes, sempre que possível.

 

*Para quem tiver curiosidade, a minha monografia, intitulada A Mulher Tpm: A Representação da Mulher Brasileira Contemporânea pelas Páginas da Revista Tpm, está disponível para download aqui. Para procurar, basta ir na parte de Jornalismo (a primeira) e digitar Priscilla Panizzon.

 

Postado na Lua Cheia

 

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