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Somos cruéis com as adolescentes que engravidam

Em uma sociedade que, paradoxalmente, exalta a sexualidade da Mulher brasileira, mas na qual o sexo é pouquíssimo discutido nos lares e escolas, a gravidez na adolescência ainda espanta. E gera comentários cruéis. Muitas e muitos destilam veneno ao olhar meninas grávidas, mas se esquecem de que, para as Mulheres, não é permitido quase nem se olhar no espelho – culpa/medo/vergonha/consequência de um patriarcado e de uma Igreja que não deixa a Mulher explorar o próprio corpo. Não entramos em contato com nossa sexualidade. Ou muito pouco. Vivemos em uma sociedade hipócrita, que não tem coragem de falar sobre sexo com suas adolescentes e seus adolescentes. Não vai ser com silêncio que os números de mães e pais jovens baixarão. Não há mágica. Antes de apontar o dedo, é preciso compaixão. E educação sexual.

 

Eu sempre estudei em escola particular e a informação sobre sexo que tive foi mínima, para não dizer nula. Sim, era um colégio religioso, mas as alunas e os alunos não eram freiras nem padres. Ou seja, transavam ou transariam. Eu não sei se os diretores, professores e os próprios pais sabem, mas nós não nascemos sabendo o que é sexo. Assim como eles não sabiam, quando tinham a nossa idade. Principalmente, não nascemos sabendo os riscos e responsabilidades que ter uma vida sexual ativa requer. Pode parecer óbvio que hoje eu saiba que, para eu engravidar, eu preciso estar no meu período fértil e que o homem precisa ejacular dentro da minha vagina para eu ter a possibilidade de estar grávida. Mas nem sempre foi assim. Muitas e muitas vezes, peguei-me confusa sobre como acontecia uma relação sexual. Se eu estava insegura em relação a isso, também estava sobre camisinha, pílula, etc etc etc.

 

Na prática, eu aprendi. Só que, às vezes, pode ser tarde. Se eu (e muitas outras gurias que conheço), com todos os privilégios de ser uma adolescente de classe média, vivia cheia de dúvidas, imagina para aquelas que são de classe baixa e contam com uma educação precária e, muitas vezes, uma família desestruturada? Essa sociedade que julga a menina de 15 anos que engravidou sabe como é a vida que ela leva? Quando foi a última vez que ela recebeu carinho? Quantas vezes alguém a explicou com todas as letras que, se ela quiser ter relações sexuais, é preciso usar camisinha ou outro método contraceptivo? Alguma vez alguém explicou a ela que transar é uma das melhores coisas da vida, mas que pode trazer consequências como uma gravidez e/ou Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs)? Foi dito a ela que toda Mulher passa por quatro fases do ciclo menstrual todo mês e que, por meio da observação do corpo e muco cervical, ela pode perceber os sinais de ovulação e, então, se precaver adequadamente? Alguém a levou em uma ginecologista?

 

Nosso corpo de Mulher, biologicamente falando, foi feito para engravidar. Se uma menina menstrua aos 13 anos, até a menopausa, ela poderá ter um nenê a cada mês. Ou seja, nascemos para engravidar. Nosso corpo quer, busca e deseja engravidar. Durante a semana do mês em que estamos férteis, a nossa vontade de transar dispara!!! Qual adolescente tem essa informação? Sim, nós sentimos tesão. Não são apenas os meninos que sentem. Por que, então, nos condenam tanto quanto nos deixamos levar por ele? Se viemos ao mundo para gerar bebês, por que tanto julgamento quando uma menina de 16 anos engravida? Não há algo errado com ela, senão o corpo dela não teria gerado aquela vida. Só que, obviamente, engravidar nessa idade não é brincadeira. Implicará muito no estudo, no trabalho, no futuro dela. É preciso orientar nossas meninas. Para que estejam conscientes das escolhas que fazem.

 

E aos meninos? Alguém explicou a eles como uma Mulher engravida? Alguém disse a eles que, SIM!!!, se a menina engravidar, eles serão os pais da criança e que isso implica uma responsabilidade para a VIDA INTEIRA? E que isso é sério, muito sério? Que aquela criança que virá ao mundo merece ter dois pais para criá-la com todo o amor? Alguém disse a eles que tanto o corpo dele como o dela são sagrados e que merecem respeito, o que implica em usar métodos contraceptivos se o desejo do momento é não ter um bebê? Foi dito aos meninos que aquela menina com quem ele insiste em não usar camisinha e que aceita por estar apaixonada e ter medo de perdê-lo (e isso é muito mais sério e acontece muito mais do que nós imaginamos), pode engravidar por um capricho seu? Alguém disse a eles que a dor que uma Mulher sente ao contar que está grávida e ouvir do pai que ele não vai arcar com as consequências é uma dor que ela carregará para a vida inteira?

 

Não estou aqui para dizer que absolutamente todas as adolescentes são vítimas de uma sociedade que não as orienta de forma correta. Claro que algumas sabiam o que estavam fazendo. Para a maioria, porém, acredito que não foi uma escolha consciente. Faltou. Alguma coisa faltou. O fato é que a responsabilidade de meninas engravidarem na adolescência é nossa também. Não lavemos as mãos. Acolhamos para, então, conscientizar.

 

Exercício Sagrado #18: Relembre sobre o começo da sua vida sexual. Quantas dúvidas você tinha? Você recebeu algum tipo de educação sexual? Se não, essa orientação poderia ter evitado momentos ruins? Reflita. Mais uma coisa: durante a faculdade de Jornalismo, quatro colegas e eu produzimos um documentário sobre gravidez na adolescência. Para assistir Positivo, clique aqui. E prepare os lencinhos.

 

Postado na Lua Minguante

 

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